domingo, 31 de março de 2013

Triste Sertão


Galhos secos
sobre o terreiro
que o sertanejo deixou para trás.
Terra batida,
pálida
e sem vida
já não floresce mais.
Na casinha de barro
7 filhos mirrados
para ‘Seu’ José, coitado, criar!
No pasto
o gado desfalecendo
seco, querendo berrar.
Triste vida dessa gente
que a Deus temente
reza a Virgem prudente
para se salvar.

Renata Rabelo
Poetisa

quarta-feira, 27 de março de 2013

Velhice


 Na doçura da velhice,
o retrato do esquecimento.
A muito já não sabe quem é,
a não ser o seu nome,
que pronuncia com veemência:
- Maria da Glória.
Sentada sobre a cama
inclina-se vagarosamente
e em silencio
ergue a cabeça em direção ao espelho.
Como que hipnotizada,
explora cuidadosamente
a própria figura envelhecida.
E não se reconhecendo mais,
Chora, acariciando o próprio rosto
com ternura.

Renata Rabelo
Poetisa






segunda-feira, 25 de março de 2013

O menino e o cão



Certo dia, como que em uma brincadeira de esconde e acha, ele surgiu ao que me parece, do seu esconderijo mais secreto, àquele que desde muito pequenino era o seu predileto, o seu porto seguro. 
Saiu de forma abrupta (cheguei até a levar um susto) daquele buraco que ficava logo atrás do armário, como que distraído na tentativa de assobiar uma canção.
Como é doce! Pensei comigo.
Não havia ninguém ali, mas ainda assim, corei como uma menina que é descoberta depois de ter aprontado. Tratei logo de corrigir o suposto mal entendido do pensamento: doce à canção, é claro! E levando as duas mãos à boca, abafei o riso.
Em punho direito, ele carregava um violão grande, de cor preta, que fazia um barulhinho chato, toda vez que o seu cãozinho serelepe, pulava sobre o braço do instrumento, na tentativa de morder suas cordas. Como podia um menino tão alto sair de um esconderijo tão pequeno carregando aquele trambolho e um animal que parecia mais uma salsinha de quatro patas, que um cão propriamente dito?
Eles (o menino e o cão), nem repararam que eu os seguia, como que hipnotizada por aquela cena boba. Nem mesmo eu vi quando enrolei o pé sobre o tapete do corredor e quase me esborrachei no chão. Sorte que deu tempo de me jogar sobre a porta de um dos quartos daquele velho apartamento, antes dele virar-se, retirando os fones do ouvido, a fim de ver e ouvir de onde vinha aquele barulho. 
- Ufa!
Ele nem reparou quando Pepe (o cão) voltou e sentou-se sobre a porta do quarto olhando para mim, tendo na cara aquele sorriso besta de alívio, e começou a lamber a minha orelha. Naquele momento, sentia-me como ele quando chegava ao seu esconderijo, protegida e aliviada por mais uma vez não ter sido descoberta.
Pepe latiu, como que querendo que eu me erguesse do chão. 
– Psiu, quieto cãozinho! 
Latiu mais uma vez. Então obedeci, com receio de que o seu dono pudesse ouvi-lo e voltar para verificar o que havia de errado por ali. Agora, já de pé, vejo Pepe brincar com a alça de minha bolsa, jogando-a para lá e para cá. 
– Cachorrinho, dá pra mim!  
A resposta dele ao meu pedido foi àqueles grunhidos de alegria e satisfação por estar destruindo algo. Olhei em volta, e sobre uma mesa que ali havia avistei um brinquedinho parecido com uma bola. Não pensando duas vezes, fui logo o pegando e jogando próximo ao cão, que de imediato largou a alça e correu atrás do objeto que pulava pelo quarto.
 Peguei a bolsa rapidamente, transpassei-a sobre o pescoço ainda com aquela baba do tal cachorro e, tratei de sair correndo daquele lugar. Abri a porta da rua com cuidado, olhando para trás com receio que me encontrassem... Mal sabia eu que a muito, ele também me observava por detrás do sofá, encantado da minha doçura e atrapalhação. Enfim, sai!
E depois desse dia, virou rotina pensar naquele menino magricela, na sua cantoria divertida e no seu cão serelepe.

Renata Rabelo
Poetisa

domingo, 24 de março de 2013

Nosso amor é circo, é lona

No picadeiro
sobre a lona velha e remendada
(re)escrevo
entre malabares,
a sua vida,
e a minha.
Entrelaço-me a ti
como um contorcionista.
E juntos,
equilibramo-nos
como em uma corda bamba.
Gargalhamos de alegria
feito dois palhaços
e, por fim
aplaudimo-nos de amor. 

Renata Rabelo
Poetisa

O passarinho


Ele era um bom passarinho, apesar de tão teimoso...
Como tudo aconteceu? Eu ainda estava de férias, quando numa tarde comum de sol na casa da tia Fá, encontrei em seu quintal aquele pobre filhotinho. Ele estava encolhido sobre um dos cantos da parede, o seu olhar era triste, tinha medo, e parecia-me fraco de fome e sede. Cheguei perto, agachei, pareceu-me morto ou quase isso no primeiro instante. Cutuquei-o com o indicador esquerdo a fim de ver se o animal se movia, e me assustei quando, desengonçado, deu alguns pulinhos para frente. Gritei titia, que logo colocou a cara no portão dos fundos, acompanhada de um amigo, para ver o que eu tanto queria: 
- Olha, é um passarinho! 
Ela sorriu, repetindo para o amigo a frase que eu acabara de dizer. 
Mas o tal amigo tratou logo de esclarecer: 
- É um filhotinho de pardal, ninguém cria esse bicho, deixe-o onde o encontrou, a mãe virá busca-lo! 
Coloquei o bichinho no mesmo lugar que o encontrei, na esperança que isso acontecesse de fato, e voltei para dentro da casa com uma série de interrogações: 
- De que modo à mamãe pardal pegaria e levaria o seu filhote? Como ela o veria? Como o ouviria se ele, tão fraquinho, mal piava? Coitado! Seria impossível. 
Dei meia volta, passei correndo pela porta que dá para o grande quintal de titia e peguei-o cuidadosamente com as duas mãos, como alguém que segura uma jarra de cristal, a fim de não machuca-lo. Quando entrei, logo vi que titia se despedia de seu amigo, então esperei. Ela ainda fechava a porta quando fui ao seu encontro e a questionei sobre todas as coisas que havia pensado, e ela acabou por concordar que eu deveria cuidar do passarinho. Não tinha habilidade, afinal, nunca cuidei de pássaros, só de gente. Mas logo lembrei que a muito ouvira dizer que as mamães passarinhas pegam o alimento de seus filhotes e, quando voltam ao ninho, eles abrem os seus pequeninos bicos para que ela deposite o que encontrou dentro deles. 
Não foi uma tarefa fácil, mas foi assim que fiz, abri cuidadosamente o pequeno bico do passarinho e coloquei água e depois comida dentro dele. Com a minha falta de jeito molhei-o todo, ele tremia de frio, tadinho. Também, ele era teimoso, se mechei demais. Então, depois de bem alimentado, coloquei-o dentro de uma caixinha de sapatos, enrolando-o num paninho para que pudesse secar, e coloquei-o dentro do quarto que eu dormia, sobre uma cadeira. Já escurecia quando vi que o passarinho adormecera. Dormia com a cabecinha virada para trás, encolhido naquele pedaço de pano. Como era lindo, eu pensava.
Não imaginei que acordasse tão cedo, o passarinho. O novo dia mal clareou e ele já pulara da cadeira sobre a qual eu havia depositado a caixa de sapatos que ele dormia. Só o encontrei algumas horas depois próximo ao sofá da sala. Ele já piava. Alimentei o bichinho e o coloquei mais uma vez para dormir. Titia deu a sugestão de usar a escada lá no fundo e pedir ao tio César para subir até o telhado da casa, a fim de coloca-lo de volta no ninho. Que ótima ideia! Era isso que faríamos, apesar de imaginar a despedida daquele ser tão pequenino, que eu já amava. Esperei o dia inteiro, mas o titio só apareceu à noite, quando está escuro demais para se usar uma escada e procurar ninhos no telhado.
Olhei o lindo passarinho mais uma vez antes de ir dormir. Ele me parecia bem, como sempre. Eu estava feliz, pois até começara a bater as asas e voar naquele dia. Pensei no quanto era gratificante cuidar daquele serzinho, em quão eram belos os passarinhos, e quão diferentes eram as criaturas de Deus. Até senti inveja dele, pois sabia voar. Há como eu queria saber voar...
Mas enganei-me! Fui tomada por uma grande tristeza quando, pela manhã, como fazia já havia três dias, acordei e fui até a mesma caixa de sapatos, sobre a mesma cadeira, naquele mesmo quarto, e cutuquei levemente o animalzinho com o indicador, e percebi que este não se moveu (pausa). Um grande vazio me arrebatou. Gritei tia Fá e tio César lamentando o acontecido. O que eu havia feito, eu era a culpada por sua morte? Talvez aquele homem estivesse certo, sua mamãe viria busca-lo, e ele cresceria e aprenderia a voar com ela, e cantaria uma linda melodia como fazem os pássaros toda à manhã, com o nascer do sol.
Depois de morto, não tive mais coragem pega-lo. Pedi a tio César para fazer isso, e conferir se havia em seu pequeno corpinho algum sinal da causa de sua morte. Ele o pegou devagar pelos pezinhos, e confirmamos mais uma vez. E então, num ato impensado, sem que eu pudesse esperar, ele arremessou para bem longe daquele quintal aquele corpinho, me impedindo, logo em seguida, de ir lá, apanha-lo. Recuei! Como lamento. Porque não fui pega-lo de volta e o enterrei como merecia?
Hoje, passados três dias de sua morte, já de volta a minha casa, ainda me faço os mesmos questionamentos quando olho para todas as fotos que tirei daquele filhotinho indefeso deitado na palma da minha mão e, penso no quanto ele era um bom passarinho, apesar de tão teimoso...  

Renata Rabelo
Poetisa

Bellas


Bellas
Marcelas
tão Bellas
quanto o luar.
Cantam,
encantam
e a todos faz rodar.
Samba Marcela,
que de samba
belo é o teu cantar.

Renata Rabelo
Poetisa

*Poema escrito à cantora e compositora baiana Marcela Bellas.  

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lou(cura)?


É loucura pensar
Que de tanta loucura
Chegaria a me matar.
Pois se matar a minha loucura
É de loucura
Que vou chorar.

Renata Rabelo
Poetisa

Você é poesia


Você é poesia
Dos pés à cabeça.
Uma linda poesia
Que recordo
com alegria
Em verso e prosa
Avesso e começo
Meio e fim.

Renata Rabelo
Poetisa 

Amor amigo


O relógio já marca 3 (três)
e eu ainda nem dormi.
Sobre o sofá da sala
a meia luz
falamos e rimos bobagens,
compartilhamos nossas vidas
fáceis e fúteis
contamos
e guardamos segredos
Inventados.

Renata Rabelo
Poetisa

quinta-feira, 21 de março de 2013

Onde encontro você


Hoje eu farei da sua companhia o meu aconchego,
Feito cama e quarto.
Tendo-te por inteiro
apreciar-me-ei a cada instante
de Ti
sem ao menos pensar no que está por vir.
Sim,
o meu querer é além do querer.
E assim,
rogo a fé
que de tanto querer-te
chegue, enfim
a amar-te.

Renata Rabelo e Robert Sampaio
Poetas


O ato



Eu quero alguém que me vire do avesso
e me tire desse ensejo de monotonia.
Eu quero alguém que me puxe pelos cabelos
e me jogue de quatro
querendo brincar.
Eu quero alguém de verdade
na hora do ato
atendo-se apenas ao fato
do instante,
e nada mais.
Eu quero embriagar-me em teu suor,
dedilhar em teu corpo,
desvendar o que se esconde
sobre a grossura dos teus pelos,
e me afogar neste oceano 
chamado Prazer.


Renata Rabelo

Poetisa

Caminhos

A mercê do tempo
que não pára,
entre pedras vou
atravessar montanhas.
Como é escuro o meu caminho...

Renata Rabelo
Poetisa


Mazelas


Sobre o chão da rua
empretecida da minha dor
vou deitando,
recolhendo os cacos
e a dignidade que ainda restou.
Miséria e Luxúria,
seguem lado a lado
entre duas esquinas.
É só virar, e pronto.
Não, ninguém me vê.
Apenas sentem
aquele cheiro de corpo molhado,
de suor lavado
que impregna a carne,
enquanto mata a alma.
Os dias passam
e eu sigo,
esquecendo-me até mesmo de quem sou.
A tanto não pronuncio o meu nome,
muito embora ele se estampe
sobre aquilo que agora estou: MISÉRIA.
Meu sobrenome? DOR.
Meu pai, a DESGRAÇA.
Minha mãe, o HORROR. 


Renata Rabelo
Poetisa

Amor de Chico

Buarquezando-me
Vou assim apaixonando-me
Caluniando-me 
Recusando-me
A amar 
Um amor 
Só.

Renata Rabelo
Poetisa

Monotonia

Nestes dias 
Monótonos de calor
Estou eu a deitar 
Sobre a cama ainda em desalinho
Escutando as melodias mais tristes,
Sonhando o amor que nunca tive
E esperando a noite chegar,
Para enfim, terminar
Mais um dia
Como outro qualquer.


Renata Rabelo
Poetisa

Inspiração

Inspiração,
bateu asas
saiu de casa 
sem rumo,
sem nada...
mal avisou se voltava.
E a poeta,
essa, coitada!
Chorou.


Renata Rabelo
Poetisa

Nada se cumpre

Nada se escreve
Se nada se lê
Nada se ergue
Sem antes prever
Nada se faz
Sem antes dizer
Nada se cumpre
Sem antes viver...
Nada.
Nem o livro
Nem o muro
Nem a verdade
Ou o mundo.
Nada.


Renata Rabelo
Poetisa

Loucura vã


Na escuridão do meu quarto, 
deitada sobre a cama, 
penso ouvir vozes. 
Ontem mesmo 
imaginei que alguém 
entrava em meus sonhos,
me atormentava.
Chorei de medo.
Ando ou não ando um tanto estranha? 


Renata Rabelo 
Poetisa

Filhote de passarinho

Filhote de passarinho
Voou de casa,
Perdeu seu ninho.
Quebrou as asas,
E sangrou.
Perdeu a vida,
Lamentou.


Renata Rabelo
Poetisa

Janela Aberta



Vento forte,
brisa fria,
céu nublado,
angústia no peito,
Deus do lado.
Medo.
Eu e a vida
que diante da minha janela
gritava
através da escuridão da noite.
Na folha rabiscada,
palavras sem nexo
de um com corpo
largado sobre o sofá da sala.
De repente,
me imagino um poeta,
daqueles que escrevem com a alma...
E olhando para mim mesma
já em risos
percebo que ainda sei brincar de sonhar.
Há, e os pensamentos ruins que tive a janela escancarar?
Esses,
agora vejo o vento levar
como mais uma noite a passar no
‘barulho silencioso’ desta cidade.

Renata Rabelo
Poetisa

REinventar-se


Escrevo sobre o papel aquilo que a vida me escreve em circunstancias.
Depois de tanto lhe apertarem, ela enfim resolveu criar um blog. Seu nome? Renata Rabelo. Uma menina estranha, interiorana, e por isso mesmo tímida.  Mas não daquelas timidazinhas bobas. Ela sabe ser cara de pau, quando precisa. Leonina, ácida, reclamona e careta, e tão crítica e desconfiada que nem sequer em si mesma, acredita. Vive a contradição de ser quem é.  É abusada, é palhaça (tão palhaça que às vezes não sabe a hora de parar). É mais medrosa do que corajosa. É amarela, baixinha, cacheada, dentuda e espevitada.
Sonhadora que só ela, inventa causos, sonha com o inalcançável, especialmente em se tratando de amar. Na verdade, ela é um aprendiz na arte das ilusões e desventuras amorosas. É egoísta, é invejosa, é fria... Porque não? Não sabe fazer cafuné, mas em compensação sabe bem como pedir um dengo, um colo.
Ama música, chocolates, por do sol, poesia, livros e filmes de romance, origamis, o cheirinho da mãe e o sorriso do pai quando lhe diz “minha filha, tenha calma, tenha paciência”, mesmo em uma discussão. Gosta de branco, de amarelo e azul, do mar, de corujas e cavalos. Renata também gosta de observar pessoas nas situações mais corriqueiras, gosta de gatos e de idosos, por isso mesmo prefere casa antiga, quintal e doce de batata. Ama fotografia e músicas antigas. É sentimental, chorona, piedosa e solidária. 
Ama unhas vermelhas, arranhões e mordidas, sabe vestir-se de santa, sabe vestir-se de... Nu. É libidinosa. Não tem preferencias, mas uma barba sabe bem como lhe desenhar arrepios.
Renata é estudante do 9º período de fisioterapia, e começou a escrever ainda ontem, em 2012, estimulada por uma amiga, que lhe dizia que costumava fazer dos pensamentos palavras. Não costuma inventar, nem sabe. Gosta mesmo é de dizer o que vê. Escreve muito pouco. Tem uma vida monótona, por isso a falta de inspiração. Enfim... Deixo aqui um espaço para quem desejar acrescentar algo mais sobre ela. E, se ainda assim interessaram-se, leiam o que por aqui ela deixar escrito. ATENÇÃO: tenham paciência, leiam com piedade.