segunda-feira, 25 de março de 2013

O menino e o cão



Certo dia, como que em uma brincadeira de esconde e acha, ele surgiu ao que me parece, do seu esconderijo mais secreto, àquele que desde muito pequenino era o seu predileto, o seu porto seguro. 
Saiu de forma abrupta (cheguei até a levar um susto) daquele buraco que ficava logo atrás do armário, como que distraído na tentativa de assobiar uma canção.
Como é doce! Pensei comigo.
Não havia ninguém ali, mas ainda assim, corei como uma menina que é descoberta depois de ter aprontado. Tratei logo de corrigir o suposto mal entendido do pensamento: doce à canção, é claro! E levando as duas mãos à boca, abafei o riso.
Em punho direito, ele carregava um violão grande, de cor preta, que fazia um barulhinho chato, toda vez que o seu cãozinho serelepe, pulava sobre o braço do instrumento, na tentativa de morder suas cordas. Como podia um menino tão alto sair de um esconderijo tão pequeno carregando aquele trambolho e um animal que parecia mais uma salsinha de quatro patas, que um cão propriamente dito?
Eles (o menino e o cão), nem repararam que eu os seguia, como que hipnotizada por aquela cena boba. Nem mesmo eu vi quando enrolei o pé sobre o tapete do corredor e quase me esborrachei no chão. Sorte que deu tempo de me jogar sobre a porta de um dos quartos daquele velho apartamento, antes dele virar-se, retirando os fones do ouvido, a fim de ver e ouvir de onde vinha aquele barulho. 
- Ufa!
Ele nem reparou quando Pepe (o cão) voltou e sentou-se sobre a porta do quarto olhando para mim, tendo na cara aquele sorriso besta de alívio, e começou a lamber a minha orelha. Naquele momento, sentia-me como ele quando chegava ao seu esconderijo, protegida e aliviada por mais uma vez não ter sido descoberta.
Pepe latiu, como que querendo que eu me erguesse do chão. 
– Psiu, quieto cãozinho! 
Latiu mais uma vez. Então obedeci, com receio de que o seu dono pudesse ouvi-lo e voltar para verificar o que havia de errado por ali. Agora, já de pé, vejo Pepe brincar com a alça de minha bolsa, jogando-a para lá e para cá. 
– Cachorrinho, dá pra mim!  
A resposta dele ao meu pedido foi àqueles grunhidos de alegria e satisfação por estar destruindo algo. Olhei em volta, e sobre uma mesa que ali havia avistei um brinquedinho parecido com uma bola. Não pensando duas vezes, fui logo o pegando e jogando próximo ao cão, que de imediato largou a alça e correu atrás do objeto que pulava pelo quarto.
 Peguei a bolsa rapidamente, transpassei-a sobre o pescoço ainda com aquela baba do tal cachorro e, tratei de sair correndo daquele lugar. Abri a porta da rua com cuidado, olhando para trás com receio que me encontrassem... Mal sabia eu que a muito, ele também me observava por detrás do sofá, encantado da minha doçura e atrapalhação. Enfim, sai!
E depois desse dia, virou rotina pensar naquele menino magricela, na sua cantoria divertida e no seu cão serelepe.

Renata Rabelo
Poetisa

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