domingo, 24 de março de 2013

O passarinho


Ele era um bom passarinho, apesar de tão teimoso...
Como tudo aconteceu? Eu ainda estava de férias, quando numa tarde comum de sol na casa da tia Fá, encontrei em seu quintal aquele pobre filhotinho. Ele estava encolhido sobre um dos cantos da parede, o seu olhar era triste, tinha medo, e parecia-me fraco de fome e sede. Cheguei perto, agachei, pareceu-me morto ou quase isso no primeiro instante. Cutuquei-o com o indicador esquerdo a fim de ver se o animal se movia, e me assustei quando, desengonçado, deu alguns pulinhos para frente. Gritei titia, que logo colocou a cara no portão dos fundos, acompanhada de um amigo, para ver o que eu tanto queria: 
- Olha, é um passarinho! 
Ela sorriu, repetindo para o amigo a frase que eu acabara de dizer. 
Mas o tal amigo tratou logo de esclarecer: 
- É um filhotinho de pardal, ninguém cria esse bicho, deixe-o onde o encontrou, a mãe virá busca-lo! 
Coloquei o bichinho no mesmo lugar que o encontrei, na esperança que isso acontecesse de fato, e voltei para dentro da casa com uma série de interrogações: 
- De que modo à mamãe pardal pegaria e levaria o seu filhote? Como ela o veria? Como o ouviria se ele, tão fraquinho, mal piava? Coitado! Seria impossível. 
Dei meia volta, passei correndo pela porta que dá para o grande quintal de titia e peguei-o cuidadosamente com as duas mãos, como alguém que segura uma jarra de cristal, a fim de não machuca-lo. Quando entrei, logo vi que titia se despedia de seu amigo, então esperei. Ela ainda fechava a porta quando fui ao seu encontro e a questionei sobre todas as coisas que havia pensado, e ela acabou por concordar que eu deveria cuidar do passarinho. Não tinha habilidade, afinal, nunca cuidei de pássaros, só de gente. Mas logo lembrei que a muito ouvira dizer que as mamães passarinhas pegam o alimento de seus filhotes e, quando voltam ao ninho, eles abrem os seus pequeninos bicos para que ela deposite o que encontrou dentro deles. 
Não foi uma tarefa fácil, mas foi assim que fiz, abri cuidadosamente o pequeno bico do passarinho e coloquei água e depois comida dentro dele. Com a minha falta de jeito molhei-o todo, ele tremia de frio, tadinho. Também, ele era teimoso, se mechei demais. Então, depois de bem alimentado, coloquei-o dentro de uma caixinha de sapatos, enrolando-o num paninho para que pudesse secar, e coloquei-o dentro do quarto que eu dormia, sobre uma cadeira. Já escurecia quando vi que o passarinho adormecera. Dormia com a cabecinha virada para trás, encolhido naquele pedaço de pano. Como era lindo, eu pensava.
Não imaginei que acordasse tão cedo, o passarinho. O novo dia mal clareou e ele já pulara da cadeira sobre a qual eu havia depositado a caixa de sapatos que ele dormia. Só o encontrei algumas horas depois próximo ao sofá da sala. Ele já piava. Alimentei o bichinho e o coloquei mais uma vez para dormir. Titia deu a sugestão de usar a escada lá no fundo e pedir ao tio César para subir até o telhado da casa, a fim de coloca-lo de volta no ninho. Que ótima ideia! Era isso que faríamos, apesar de imaginar a despedida daquele ser tão pequenino, que eu já amava. Esperei o dia inteiro, mas o titio só apareceu à noite, quando está escuro demais para se usar uma escada e procurar ninhos no telhado.
Olhei o lindo passarinho mais uma vez antes de ir dormir. Ele me parecia bem, como sempre. Eu estava feliz, pois até começara a bater as asas e voar naquele dia. Pensei no quanto era gratificante cuidar daquele serzinho, em quão eram belos os passarinhos, e quão diferentes eram as criaturas de Deus. Até senti inveja dele, pois sabia voar. Há como eu queria saber voar...
Mas enganei-me! Fui tomada por uma grande tristeza quando, pela manhã, como fazia já havia três dias, acordei e fui até a mesma caixa de sapatos, sobre a mesma cadeira, naquele mesmo quarto, e cutuquei levemente o animalzinho com o indicador, e percebi que este não se moveu (pausa). Um grande vazio me arrebatou. Gritei tia Fá e tio César lamentando o acontecido. O que eu havia feito, eu era a culpada por sua morte? Talvez aquele homem estivesse certo, sua mamãe viria busca-lo, e ele cresceria e aprenderia a voar com ela, e cantaria uma linda melodia como fazem os pássaros toda à manhã, com o nascer do sol.
Depois de morto, não tive mais coragem pega-lo. Pedi a tio César para fazer isso, e conferir se havia em seu pequeno corpinho algum sinal da causa de sua morte. Ele o pegou devagar pelos pezinhos, e confirmamos mais uma vez. E então, num ato impensado, sem que eu pudesse esperar, ele arremessou para bem longe daquele quintal aquele corpinho, me impedindo, logo em seguida, de ir lá, apanha-lo. Recuei! Como lamento. Porque não fui pega-lo de volta e o enterrei como merecia?
Hoje, passados três dias de sua morte, já de volta a minha casa, ainda me faço os mesmos questionamentos quando olho para todas as fotos que tirei daquele filhotinho indefeso deitado na palma da minha mão e, penso no quanto ele era um bom passarinho, apesar de tão teimoso...  

Renata Rabelo
Poetisa

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