sábado, 31 de agosto de 2013

Eu e a solidão

Decidi-me: 
Não quero mais escrever poesias de amor.
Não quero mais as lágrimas,
Não quero mais a dor.
Agora seremos apenas duas,
A solidão e eu.

Renata Rabelo
Poetisa

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Ergueu-se

Embalada pelo zumbido perturbador do campo,
Após longas horas de uma caminhada que não parecia ter fim,
Adormeceu por entre a relva molhada.
Sonhou tão profundamente, 
Que a sua alma elevou-se
Erguendo consigo o próprio corpo,
Ali desfalecido.


Renata Rabelo
Poetisa

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Simplicidade

Amava o obvio:
Livros, domingos, petiscos, rabiscos e meninos.
Amava araras, praças, massas, taças e garrafas.
Amava a chuva descalça, o mar, as aves, as flores,
Os novos e velhos valores,
Descontroles,
Conversores de dores em amores.  
Apreciava o nada,
O silencio acalentador da madrugada,
O frio que agasalha,
O abraço que acalma,
O sorriso que desperta a alma.
Essa mulher,
Por amar tudo tão descomplicadamente,
Foi confundida à própria Simplicidade.

Renata Rabelo
Poetisa

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre a trama

O doce desejo do chamego teu, moreno
Trouxe-me à cama,
Despiu-me enrolada sobre a trama
E esperou a tua chama queimar a minha.

Renata Rabelo
Poetisa 

domingo, 25 de agosto de 2013

Amor urbano

Via-te nua.
Observava cada esquina do teu corpo,
E cuidadosamente atravessava-o,
Como quem atravessa uma rua.
Quase que involuntariamente
Minhas mãos deslizavam sobre a tua pele,
Como um trilho,
Pronto para o trem.
Nossos olhares fixavam-se
Como dois retrovisores,
E num vai e vem,
Como o dos elevadores,
Nossos tremores nos apossavam,
Misturando-nos como um liquidificador.
No barulho do motor,
O nosso amor se anunciou,
E enfim se concretizou,
Nesta cidade de pedra.

Renata Rabelo
Poetisa

sábado, 24 de agosto de 2013

Triste fim



      Abrindo a boca,
      Falou sem parar
      Até engasgar,
      E sufocar da própria saliva.
      Triste fim para um homem tão bonito. 

       Renata Rabelo 
       Poetisa

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sobre a amizade

Caro amigo,
Sejamos claros:
Se eu te amo,
E você me ama,
Para que todo esse drama?
Uma vez criado laços,
Que nem nó de sapato amarrado,
O que nos resta é andar,
Para sempre colados,
Presos nesse nosso embaraço.

Renata Rabelo
Poetisa

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Na tua linha

Escrevi na tua linha
O que o meu desejo incita
Ao te ver querida,
Despida
Nesse corpo que é só meu.

Renata Rabelo
Poetisa

Decifrar em palavras

Sei não,
Se essa mão sabe escrever
O que a razão soube dizer,
Sobre o que o coração quis esquecer,
Nesse vai e vem do bem querer.

Renata Rabelo
Poetisa

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Enxergando-se

Pisei sobre a minha ignorância,
Vomitei toda a minha arrogância,
Maltratei a minha ganância,
Falei mal à minha intolerância.
Quando por fim terminei de humilhar-me,
Banhei-me,
Lavei-me,
Limpei-me,
E enxuguei-me,
Para verti-me então de algo novo. 

Renata Rabelo
Poetisa

O que eu sonho

Eu hoje acordei cedinho com vontade de viver mais.
Acordei querendo sorrir ao mundo,
Agradecer ao fundo pela vida que o destino me traz.
Eu hoje quero abraçar os meus amigos, os meus irmãos, os meus pais.
Passar horas rindo e relembrando o passado que não volta mais.
Falar da infância, das brincadeiras, da escola, dos micos, dos amores inocentes,
Dos novos caminhos que vem vindo, que estão logo à frente.
Hoje, eu só quero viver como se não houvesse tristeza, nem desamor.
Como se faltasse injustiça,
Acabasse o horror.
Eu hoje quero poder acreditar na esperança,
E enxergar o mundo com o olhar de criança.
Quero fazer da vida uma grande brincadeira,
Poder sorrir com inocência,
Amar com decência,
E sonhar,
Pois pra ser feliz não é preciso esperar.
Fui!

Renata Rabelo
Poetisa 

Coração inocente

Em poesia,
Em canção,
Na contramão da razão,
Sigo o meu coração
Que em voz,
Em violão,
Declarou-se a paixão,
Inocente!

Renata Rabelo
Poetisa 

Velho palhaço

No teu rosto, as tuas rugas as tintas já não escondem mais.
Ficaste velho.
Perdestes a memória,
Esquecestes a piada,
Repetistes a história.
O seu camarim enferrujou,
E suas vestes desbotadas perderam-se no tempo.
No picadeiro já não entrastes mais...
Saudades dos seus tempos de mocidade que  a muito ficaram para trás.
Agora é só um senhor careca e barrigudo,
Que perdera tudo: a lona, a plateia, os aplausos.
Só não perdeste uma coisa,
O teu riso de palhaço.

Renata Rabelo
Poetisa 

O compositor

Nesta canção
Falarei do meu coração
Que cego de paixão
Chorou,
Por ter tido um amor
Que não se importou
Pelo calor do sabor
Do beijo meu.

Renata Rabelo
Poetisa

Interior

Na escuridão,
Sobre o frio da madrugada,
Vejo a lua cheia esconder-se entre a neblina.
Nesta cidade,
Os únicos sons que se ouvem,
São os uivos de cachorros raivosos
E os cantos dos galos
Pendurados sobre as arvores nos terreiros.
Na esquina,
A fumaça sai da velha chaminé da padaria,
E já se sente aquele cheiro de café coado,
Que se mistura ao de mato molhado de sereno da noite.
O relógio tic-taca três e quarenta e nove,
E debruçado sobre a janela
Permaneço perdido nas velhas lembranças.
Recordações de quem a casa voltou,
Depois que tanto tempo ficou
Longe do aroma do interior,
Esse lugar que lhe criou.

Renata Rabelo
Poetisa